license to confuse

Março 12, 2008

For Paulo (whenever we may find him)

Arquivado em: Uncategorized — licensetoconfuse @ 11:21 pm

“I wandered empty streets
Down past the shop displays.
I heard cathedral bells
Tripping down the alley ways,
As I walked on.”

O Paulo ainda era afim da Aline e nem lembrava mais. Na madrugada, num ponto de ônibus do lugar mais distante da cidade:
- Oi Aline!!!
- oipaulo(ponto)
Mais valia que lhe tivesse mostrado um dedo do que dito um “oipaulo(ponto)” desses, sem qualquer ponto de exclamação ou sinal entusiasmo, há tempos que eles não se viam. E por horas e horas a cena se repetia na cabeça do garoto que apesar do sono, da fome e da falta de expectativas de que seu ônibus por ali passaria, ficou remoendo o gesto escroto da Aline que não passava de mais uma dessas garotas que, apesar de terem namorado, têm a estranha necessidade de ter todos os caras aos seus pés e humilhá-los sem nenhum pudor.
O “oipaulo(ponto)” foi tão humilhante que no momento em que aconteceu, um bando de muleques bêbados, que passavam, fizeram questão de repetí-lo ao Paulo que, depois dessa, só desejava ter seu manto de invisibilidade em mãos.
Ele não merecia aquilo. Ela já tinha lhe dado todos os foras possíveis, havia mentido na covardia de ser honesta e lhe dizer que ele não a atraía e ainda assim ele admirava que Aline era uma garota que curtia ouvir pós-punk…
Além de um sonhador, um cara peculiar. Portava um maço de cigarros, uma caixa de fósforos que misturava os novos e os queimados – ele não gostava de jogá-los na rua, então guardava – e uma bermuda engraçada que virava calça e, em vão, procurava sua escova de dentes que deve ter caído do bolso. Podia parecer um cara comum a quem não o conhecia: só mais quase adulto de uns 21 anos com um emprego medíocre de vendedor de cartões de crédito via telemarketing. Mas o que ele tinha de especial? Era um quase adulto que desejava cursar audiovisual pelo simples prazer de fazer algo alternativo à tudo que tem por aí e não pra fazer disso uma profissão porque sabia que não daria certo, ele queria poder fazer música para as pessoas ouvirem e não pra ganhar dinheiro. Aliás, se ele o tivesse teria ido ao show do Bob Dylan só para dar um safanão naquele velhote mercenário.
O Paulo acretidava que as coisas acontecem por algum motivo que nunca vamos entender – e eu concordo -, além de ter sensibilidade o suficiente pra filosofar sobre pessoas e cenas cotidianas que a maioria nem pára pra ver.
Se vamos vê-lo novamente, eu não sei. Mas que aquela noite depois do show do Interpol vai ficar em nossas mentes, eu não tenho dúvidas. E acredito que não tenha sido por acaso que nos encontramos naquele ponto e que nenhum ônibus passou até o amanhecer. Nunca vamos esquecer o Paulo, que desapareceu assim que entramos no metrô, como se nem tivesse existido. Talvez parte da nossa esquizofrenia coletiva. Um personagem que criamos com muito daquilo que queríamos ser.

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